No dia de Santo Antônio de Categeró, jornalista chama a Igreja de "burocracia branca e eurocêntrica do Vaticano".
- Gabriel Chimite
- 18 de mar.
- 6 min de leitura
Publicação foi veiculada no dia de Santo Antônio de Categeró. A jornalista ainda rebaixou a posição de "beato" como se fosse qualquer coisa.

No último dia 14 de março, a Igreja Católica celebrou "Santo" Antônio de Categeró, um beato negro. No mesmo dia, um portal de notícias divulgou uma matéria tendenciosa sobre o fato do "santo" nunca ter sido canonizado. A matéria ainda incluiu uma ofensa dirigida à Igreja Católica, a chamando de "burocracia branca e eurocêntrica do Vaticano", como se a Igreja Católica Apostólica Romana tivesse algum posicionamento racista.
Logo em seguida a essa fala, a matéria menospreza o título de "beato" quando diz:
[...] mas apenas um "beato" na burocracia branca e eurocêntrica do Vaticano.
Aqui, a palavra "apenas" é usada no sentido de menoscabo, menosprezo. Mas, para a Igreja Católica, um beato é inferior ao santo? A resposta é NÃO, para a Igreja Católica, tanto o beato quanto o santo são almas que atingiram a perfeição e estão na glória eterna. A diferença está apenas em como a Igreja aqui na Terra organiza o culto a eles. A Igreja acredita que ambos podem interceder por nós da mesma forma, pois ambos estão junto de Deus. A "hierarquia" que percebemos existe apenas no Direito Canônico para distinguir quem tem culto autorizado no mundo todo (santo) de quem tem culto restrito (beato).
Quem foi Santo Antônio de Cartago?
Antônio de Categeró, OFS, conhecido também como António de Noto ou Antônio Etíope, foi um escravizado muçulmano proveniente da atual região da Líbia e entregue ao trabalho servil na Sicília, onde converteu-se ao catolicismo. Dedicado ao serviço social e religioso como terciário franciscano, seu culto foi confirmado no ano de 1611, tornando-se alvo de devoção popular.
Antônio nasceu na cidade de Barca, Cirenaica, na África e, como tal, era muçulmano. Ele foi sequestrado e levado para a ilha da Sicília, onde foi vendido pelo valor equivalente ao de dois cavalos a um camponês da cidade de Noto, que o encarregou de pastorear seu rebanho de cabras e ovelhas. Durante esse serviço, ele foi catequizado pela família que o comprara e converteu-se ao catolicismo.
Era conhecido por sua humildade e bondade, bem como por seu ascetismo, ajuda aos doentes e pobres. Após ser liberto da servidão, dedicou-se ao trabalho em hospitais, cuidando dos doentes, e à vida religiosa, dedicando-se às orações, ingressando posteriormente na Ordem Terceira de São Francisco. Ao decidir seguir uma vida contemplativa, tornou-se eremita no deserto.
Cinquenta anos após a morte do eremita, em 13 de abril de 1599, seu túmulo foi aberto. Segundo a tradição, seu corpo permaneceu incorrupto e assim começaram as histórias de milagres ocorridos por sua intercessão.
O culto a Antônio de Categeró recebeu confirmação no ano de 1611, sendo-lhe concedido o título de bem-aventurado e permitido que sua imagem recebesse uma auréola, embora já seja popularmente invocado como santo.
Tornou-se conhecido no Brasil graças aos jesuítas, logo homenageado em igrejas e imagens barrocas. Tornou-se devotado especialmente pelos africanos escravizados.[6] Em 24 de janeiro de 1978, o bispo de Noto doou uma relíquia óssea do braço de Antônio à Paróquia Nossa Senhora da Expectacão, Freguesia do Ó, em São Paulo.
"Santo" Antônio de Categeró não foi canonizado por ser negro na "burocracia branca e eurocêntrica do Vaticano"?
NÃO. Existe um processo de canonização tramitando no Vaticano, impulsionado pela diocese de Noto, na Itália, onde ele viveu e morreu. Para que ele seja proclamado santo, a Igreja exige a comprovação científica e teológica de um segundo milagre ocorrido após a sua beatificação.
A existência de outros santos negros canonizados — como São Benedito, São Martinho de Porres, Santa Efigênia e Santa Josefina Bakhita — é utilizada pela Igreja para argumentar que a cor da pele não é um impedimento doutrinário para a santidade.
No Brasil, ele é uma figura central da religiosidade popular negra, servindo como símbolo de resistência e dignidade para as comunidades escravizadas desde o período colonial. Seu culto é muito forte em igrejas como a de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em Salvador.
Por que o Beato Antônio de Categeró não é santo?
Para a Igreja Católica, o Beato Antônio de Categeró (também conhecido como Antônio Etíope) não é santo oficialmente porque o seu processo de canonização ainda está em tramitação no Vaticano e depende da comprovação de um novo milagre.
Embora ele seja chamado de "santo" pela devoção popular, especialmente no Brasil e na Itália, existem razões técnicas e processuais para ele manter o título de beato. Segundo as normas do Dicastério para as Causas dos Santos, para que um beato seja proclamado santo, é necessário o reconhecimento oficial de um segundo milagre ocorrido após a sua beatificação. Atualmente, a causa para a sua canonização está sendo impulsionada pela diocese de Noto, na Sicília, onde o beato viveu e faleceu. O processo exige uma investigação minuciosa de sua vida e a validação científica de graças alcançadas por sua intercessão.
O título de Beato permite que ele receba culto público em regiões específicas (como em certas igrejas brasileiras ou na Sicília). A Canonização elevaria o seu culto para toda a Igreja Católica no mundo.
Antônio de Categeró é um dos maiores símbolos da religiosidade popular negra. Durante a escravidão, sua história de escravizado que se tornou livre em Cristo serviu como forma de resistência espiritual. Para os fiéis, ele já possui a "glória divina", independentemente da burocracia terrena.
São Gonçalo do Amarante é um dos santos mais populares de Portugal e do Brasil. Ele era um nobre português, branco e sacerdote no século XIII. Apesar da fama, ele nunca foi canonizado oficialmente como santo pela Igreja Universal. Ele é tecnicamente um Beato (seu culto foi apenas "confirmado" pelo Papa Pio IV em 1561).
Se um nobre europeu, branco e influente permanece como beato por mais de 700 anos, isso prova que a burocracia do Vaticano é lenta para todos e não se baseia apenas em critérios raciais.
Antônio de Categeró e Gonçalo do Amarante compartilham o chamado culto imemorial:
A Igreja permitiu que ambos fossem chamados de "santos" pelo povo e tivessem missas em certas regiões sem passar pelo processo moderno de canonização (que é caríssimo e complexo). Isso mostra que a Igreja reconhece a santidade deles na prática, mas a "papelada" oficial exige um segundo milagre comprovado cientificamente, algo que nem a causa de Gonçalo nem a de Antônio apresentaram nos moldes exigidos pelo Vaticano moderno.
Para refutar o viés racial na burocracia, cita-se o caso de São Benedito, o Mouro:
Ele era filho de escravizados, viveu na mesma região da Sicília que Antônio de Categeró e na mesma época (século XVI). São Benedito foi canonizado em 1807, provando que a Igreja, mesmo em séculos passados, elevou negros escravizados ao altar máximo quando o processo jurídico foi concluído e os milagres validados.
O impedimento para o título de "Santo" em Antônio de Categeró é a "falha processual" (falta de um segundo milagre pós-beatificação validado por médicos e teólogos) e não sua origem. O fato de existirem santos brancos e nobres (como Gonçalo) que também "pararam" no estágio de beato demonstra que o rigor documental atinge candidatos de todas as cores e classes sociais.
O processo de canonização é extremamente caro. Ele exige advogados (postuladores), médicos para laudos e tradutores em Roma. Muitos santos "pararam" no caminho porque não tinham uma Ordem Religiosa rica (como Jesuítas ou Dominicanos) por trás financiando o processo.
Antônio de Categeró era um eremita franciscano. São Gonçalo (nobre e branco) também não tinha uma estrutura focada em sua canonização universal na época. O entrave é financeiro e logístico, não étnico.
O Papa Bento XIV estabeleceu regras rígidas no século XVIII. Para ser santo, ou você prova os milagres modernos (caríssimos), ou prova um culto ininterrupto desde tempos antigos.
A Igreja deu a Antônio de Categeró o mesmo privilégio que deu a nobres europeus: a confirmação de culto.
Se a Igreja fosse racista na burocracia, ela teria proibido o culto a Antônio. Em vez disso, ela o oficializou como Beato, permitindo missas e igrejas em seu nome. Ela o colocou no mesmo patamar jurídico de milhares de beatos europeus.
Se a Igreja fosse racista em sua burocracia, ela não teria canonizado São Benedito (escravizado) em 1807, nem mantido São Gonçalo do Amarante (nobre europeu) apenas como Beato até hoje. A santidade oficial não é um troféu de raça, é um processo jurídico que exige um segundo milagre comprovado que Antônio ainda não teve validado em Roma.



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